Janer, uma atração à parte do Polo Astronômico

Janer, uma atração à parte do Polo Astronômico

Inspirado nas aventuras de Ulisses, protagonista do poema épico do poeta grego Homero, o coordenador do Polo Astronômico do Parque Tecnológico Itaipu (PTI), Janer Villaça, saía de casa ao anoitecer, aos 7 anos de idade, para ir às montanhas admirar o céu. Foi o livro – que Janer leu umas 5.307 vezes, segundo ele, antes de perder a conta - que despertou o seu interesse pelo espaço.

 

Os astros do céu – o Sol, a Lua e as estrelas -, nos tempos do herói grego Ulisses, eram usados como referência para a orientação dos viajantes. Foi na leitura de infância que surgiu o interesse que também orientaria toda a vida de Janer.

 

O coordenador do Polo lembra do “primeiro contato” que teve com um fenômeno astronômico. Filho único até então, ele aguardava a mãe chegar em casa quando viu um bólido – a popular estrela cadente – cruzar o céu. O menino ficou impressionado, mas decepcionado por não ter ninguém para compartilhar o momento.

 

Quando a mãe chegou em casa, teve que ouvi-lo repetir pelo menos 10 vezes a mesma história. “Eu falava que tinha visto uma coisa que veio do céu. Era uma bola de fogo, que cruzou o céu reto, não veio de cima, então deveria ter alguém dentro dela dirigindo”, recorda. Janer conta que a mãe não soube explicar o que era o bólido, mas disse que, na terra dela, o nome disso era “Mãe de Ouro”.

 

A curiosidade de Janer com o universo só foi aumentando. Ele morava em Belo Horizonte, Minas Gerais, e, quando caía a noite, fugia de casa para ir às montanhas observar o céu. O hobby era, literalmente, de tirar o fôlego: asmático, amanhecia com falta de ar, o que fazia com que a mãe restringisse os passeios noturnos.

 

Primeiras aulas

 

Aos 13 anos de idade, Janer começou a trabalhar como office boy em uma papelaria. Com o primeiro salário, comprou um LP de Bach e Haendel. Aí, o interesse que estava um tanto quanto “adormecido” pela astronomia ressurgiu. “Na capa do disco havia muitos desenhos de céu estrelado. Um detalhe importante é que eu fui comprando a coleção a cada mês, mas não tinha onde tocar o disco. Só que tinha um pouco de história nele, e eu comprava por isso”, lembra.

 

No mesmo emprego, Janer começou outra coleção, a que daria embasamento para começar a dar aulas de astronomia: as revistas da National Geographic. As primeiras “aulas” foram para os amigos de acampamento. “A gente dividia as tarefas: quem ia falar de céu, quem ia falar de história, quem ia falar de montanhas. E eu, obviamente, falava de céu. Eu replicava a National Geographic com a minha transposição didática, e isso me ajudou a ser professor.”

 

A partir da revista, veio a decisão do hoje coordenador do Polo sobre o seu futuro profissional: queria ser geógrafo. Mas, algumas circunstâncias da vida fizeram com que o sonho fosse adiado. A mãe casou novamente e, em cinco anos, teve cinco filhos. O padrasto morreu logo em seguida e a mãe adoeceu, o que fez com que Janer tivesse que cuidar dos cinco irmãos.

 

Mas nem assim deixou de estudar. “A minha formação em astronomia e geografia, em um primeiro momento, foi toda autodidata.”

 

Primeiro telescópio

 

O primeiro telescópio do coordenador do Polo – que até hoje está na sala dele – foi comprado em 1994. Só que ele não quis comprar o objeto, que para ele era tão importante, de forma habitual: tinha que ser com moedas de um real. Em um ano e meio, ele conseguiu juntar as 3 mil moedas necessárias. Mas teve que dar um “jeitinho” para agilizar. “Eu trocava notas de 10 reais por moedas de um real”, confessa. “Levei tudo no banco e o caixa ficou indignado comigo, porque imagina, era aquela escassez de moedas e eu cheio delas.”

 

Com o telescópio, Janer, que então trabalhava como monitor de uma agência de turismo pedagógico – que ofertava pacotes para escolas -, começou a oferecer aulas de astronomia, por valor simbólico, para crianças. Mas R$ 1,50 ou R$ 2 de cada uma acabavam sendo um bom dinheiro como complemento de seu salário. Foi nessa época também que ele entrou para o Centro de Estudos Astronômicos de Minas Gerais (Ceamig).

 

Mudança

 

Em maio de 1999, o coordenador do Polo Astronômico mudou-se para Foz do Iguaçu e, aqui, conheceu o professor Daniel Iria Machado, da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste). O físico também gostava de astronomia e, em pouco tempo, tornaram-se amigos.

 

Em Foz, Janer retomou o sonho da adolescência e formou-se em geografia. Quando ainda estava no quarto ano da faculdade, prestou concurso para professor da rede estadual e passou. Formado, em pouco tempo já estava dando aulas para o ensino fundamental, ensino médio, pré-vestibular e turmas do Educação de Jovens e Adultos (EJA).

 

Janer estava satisfeito com a profissão, mas o amigo Daniel deu a dica que mudaria essa trajetória. No Parque Tecnológico Itaipu havia o plano de construção de um planetário. Ao conhecer o projeto, Janer quase perdeu uma noite toda de sono. E levantou da cama com uma decisão: iria deixar as aulas e ser voluntário naquele que seria o futuro Polo Astronômico.

 

Durante sete meses, trabalhou no projeto sem receber nada, até que foi aberto o processo seletivo que o tornaria coordenador do Polo. Ele não esquece a resposta que deu a uma das perguntas feitas na seleção - “O que você pretende fazer quando estiver administrando o Polo em prol da comunidade?”. A resposta dele foi “quero que todo mundo saiba o que eu sei e obviamente muito mais coisas que vou aprender”.

 

Hoje, Janer afirma que o Polo não tem o objetivo de ensinar astronomia, mas de encantar as pessoas com esta ciência, para que queiram aprender mais. E isso ele tem feito com maestria. A estrutura do Polo, com observatório, planetário e outros atrativos, por si só já é encantadora. Mas a forma como Janer conduz suas aulas e palestras no espaço - com uma linguagem simples e, em muitos momentos, divertida - é uma atração à parte para os visitantes.

 

 

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