Lazo, de barrageiro a contador de causos do PTI

Lazo, de barrageiro a contador de causos do PTI

Desde junho de 2016, a missão de Lazo Cardoso é recepcionar os turistas que visitam a Itaipu Binacional e enchê-los de histórias e curiosidades sobre os bastidores do período de construção da maior usina hidrelétrica em produção de energia do mundo. Ele fala de tudo isso com propriedade, uma vez que foi um dos 100 mil trabalhadores que ajudaram a tirar do papel o projeto da usina.
    
A trajetória em Itaipu começou em 1978, depois trabalhar em outras três barragens: Ilha Solteira (SP); Água Vermelha, na divisa entre Minas Gerais e São Paulo; e Salto Santiago, em Laranjeiras do Sul (PR). Antes de trazer a família, morou por três meses nos alojamentos dos operários, que hoje servem como instalações do Parque Tecnológico Itaipu (PTI). “Isso aqui era uma cidade a parte. Depois me cederam uma casa na Vila C”, conta o ex-barrageiro.
    
No canteiro de obras, exerceu a função de apontador (uma espécie de cartão-ponto ambulante) e sempre esteve envolvido na parte da fiscalização da obra. Em 1990, quando tudo indicava o seu retorno para Andradina (SP), surgiu uma nova oportunidade para continuar em Foz do Iguaçu, cidade que aprendeu a amar. “Aqui foi diferente de outras barragens porque a cidade já tinha tudo: casa, escola, hospital. A minha esposa e a minha filha queriam muito ficar, mas não via perspectiva por causa do fim da obra. Vim com a minha Brasília só para buscar a mudança e colocar a casa à venda quando soube de um concurso para a Prefeitura”, explica.
    
Após fazer a prova, a 54ª posição parecia distante para as 20 vagas ofertadas. Parecia. “Foi aí que me informaram da prova de títulos. Como havia feito vários treinamentos durante a construção, possuía muitos certificados”. Com a “papelada”, subiu para a 18ª colocação e garantiu o emprego novo. Nos primeiros cinco anos, ainda conciliou o trabalho na prefeitura com a função de assistente administrativo no Colégio Estadual Costa e Silva. “Chegava em casa, tomava um banho e já ia para o colégio, onde ficava até as 23h. Lá eu era um "faz-tudo". Ficava na secretaria, cuidava da biblioteca e até controlava os ânimos dos alunos”. 
    
Na prefeitura, além de passar por muitas divisões, atuava como porta-voz em algumas situações. “O povo tinha medo de falar com a imprensa, mas para mim não tem segredo. É só falar a verdade. Se não falar a verdade, mais tarde irão descobrir”, aconselha. Depois de 23 anos de serviços prestados ao município veio a aposentadoria, mas quis o destino que Lazo e Itaipu se reencontrassem em 2016, mais de 25 anos depois dos tempos de barrageiro. “Certo dia, o meu genro, que é professor na Unila, comentou que estavam contratando ex-barrageiros para trabalhar no turismo. Aí pensei: ‘sou eu!’ e fui tentar”. E conseguiu. 
   
   

Os “causos”

    
Para valorizar a história da Itaipu, nada melhor do que a colaboração de quem fez parte dessa trajetória, como é o caso de Lazo e outros ex-barrageiros. Durante as visitas, ele conta com um grande repertório de “causos” do tempo da construção da barragem. Entre as histórias, está, por exemplo, a criatividade dos trabalhadores na tentativa de burlar a segurança e levar bebida alcoólica aos alojamentos. “Tinha um sujeito que gostava tanto de uma ‘marvada’, que resolveu inventar uma artimanha. Sempre voltava da folga carregando uma mangueira. Certa vez, o guarda perguntou de onde era e ele disse que a usava para regar o jardim da casa da namorada. Na verdade, ele enchia a mangueira de cachaça. Quando descobriram, o cara tomou uma advertência e foi apelidado de ‘mangueirinha’ pelos colegas”. 
    
Também teve o caso do barrageiro que trazia duas garrafas de café para o trabalho: uma para ele e outra para os colegas. Situação inusitada, mas até então nunca questionada. Depois de um tempo descobriram que a dele, na verdade era uma mistura de pinga com cinzano. “Parecia café mesmo”, conta Lazo.
    
E o caso do baiano, que sonhava em poder manobrar um Terex, modelo de caminhão enorme que chegava a transportar até 70 toneladas de material. Depois de muitos meses de treinamento, conseguiu atingir a sonhada meta. No final do ano, ao enviar uma carta para a mãe que morava longe, relatou que estava feliz e que ele “e o amigo Terex trabalhavam incansavelmente dia e noite, e só se separavam para dormir”. A resposta da mãe foi um tanto inocente: “Estou muito feliz e estou mandando duas rapaduras: uma para você e outra para o seu amigo Terex”. Se ele explicou que o Terex era na verdade uma máquina, ninguém sabe. A certeza é que as duas rapaduras foram consumidas pelo funcionário.
    
E são histórias como essas que fazem a lida diária de Lazo leve e gratificante. “Tenho sentimento de alegria e gratidão, porque estou falando aqui que vivi. Não tenho que buscar outras coisas. É a minha história”, complementa.