Samuel, um artista em construção na nova obra do PTI

Samuel, um artista em construção na nova obra do PTI

A tarefa do ajudante de obras Samuel Araújo, de 26 anos, é tirar projetos do papel e ajudar a transformá-los em algo concreto. Atualmente, ele trabalha na construção do prédio ao lado do Edifício das Águas, no PTI. Mas o sonho dele é mudar de lado e colocar no papel a sua realidade, por meio de desenhos e pinturas. É na arte que Samuel se realiza e ainda diverte os colegas de empreitada fazendo charges com os melhores momentos que eles dividem.

 

Nas horas vagas e nos finais de semana, o ajudante de obras troca pá, cimento e tijolos por pincéis, tinta guache ou qualquer outra coisa que tenha em mãos pra fazer o que realmente gosta: contar histórias a partir da arte. Quando o pessoal da área de Infraestrutura e Obras do Parque descobriu esse talento, Samuel ficou famoso entre os colegas e já está recebendo “encomendas” das suas artes.

 

Desde os quatro anos de idade, observando o pai e o tio que desenhavam, Samuel já se interessou pela arte. Na época, para ele, era uma forma de se aproximar e se comunicar com os familiares. Na escola, o ajudante de obras era um dos primeiros alunos a entregar as atividades nas aulas de artes e a paixão chegou a ser motivo de uma suspensão. “Era final do ano e eu já tinha passado na matéria, então eu pensei ‘ah, vou ficar desenhando’, mas fui expulso da sala”, conta.

 

As circunstâncias da vida não permitiram que ele levasse a sério o desenho e a pintura. Desde os sete anos, teve que ajudar em casa, onde morava com os quatro irmãos. Trabalhou como engraxate, ajudou a mãe a catar papelão, foi ajudante elétrico… Fez o que podia para auxiliar o sustento da família e não conseguiu terminar os estudos. Parou no terceirão. “Minha mãe adoeceu e eu tive que largar os estudos para ficar com ela. Ainda não deu, mas eu vou terminar”.

 

Apesar de ter feito dois cursos básicos de desenho, a maior parte do que Samuel sabe é da prática. Ele nem se arrisca a dizer quantos desenhos e pinturas já fez, mas sabe qual é o preferido: “o desenho da minha esposa e do meu pai com minha filha”. A menina, de 1 ano e 4 meses, Rebeca Eloá, já está seguindo os passos do pai e, usando como "tela" paredes de casa. Mesmo assim, ele garante que incentiva o talento da pequena.

 

Quando pega o papel ou qualquer outro material em que possa expressar sua arte, comenta Samuel, ele deixa os problemas de lado. “O que eu não consigo realizar na minha vida com o desenho eu faço’".

 

Recordação garantida

 

Assim que a obra do PTI ficar pronta, é provável que Samuel tenha que partir para a próxima construção. Mas ele já garantiu uma lembrança dos oito meses passados no Parque: uma grande pintura do novo prédio, ao lado do Edifício das Águas, que foi doada à área de Infraestrutura e Obras. 

 

A motivação para fazê-la, segundo o ajudante de obras, veio da engenheira do setor Daniele Gotardo Martinez, que foi quem descobriu e elogiou o talento de Samuel. “Eu já tinha em mente fazer o desenho, porque onde eu trabalho levo um desenho do local. Aí, como ela disse que gosta de arte, eu aproveitei.” O fato de Daniele ter reparado no hobbie de Samuel coincide bem com o que ele pensa do Parque: “Aqui é diferente, né? Tem lugares em que você vai e as pessoas nem olham para você. Aqui até a senhora da cantina, o senhor que está fazendo limpeza, todo mundo dá ‘bom dia’. É um lugar em que gosto de trabalhar”.

 

Histórias a terminar

 

Samuel gosta de contar histórias e já tem até alguns personagens, como o Zé Capim, um trabalhador que levanta cedo para vir trabalhar no PTI a bordo de uma velha Kombi. Mas o conto do Zé, ou do Samuel, ainda não está finalizado. “Para continuar essa história a gente precisa de apoio. Pretendo ter alguém que goste da história para que eu possa terminar.” Ele diz que, atualmente, usa tinta guache, por ser mais barata, e que não tem condições de comprar as tintas profissionais.

 

O ajudante de obras quer, também, em dar um final diferente para a própria história. “Meu sonho é virar um grande desenhista, um Ziraldo, um Mauricio de Souza, ser conhecido pelos meus desenhos”.